quinta-feira, 3 de maio de 2007

"Eu quiria morá numá fávéla"


O blogspot recebeu o seguinte mail para publicação, O mail vem anónimo identificando-se como “ atento73”, por isso todo o conteúdo não é da responsabilidade do blog. O mail diz:

"Eu quiria morá numá fávéla"


Num mi chami di teimoso
Que alguém já mi chamô,
Mais podimi chamá
Do qui quizé seu dotô.
Tambem tenho nomi,
Também tenho identidadi,
Eu sô filho di DEUS
Eu sô Homi di verdadi.

Eu "quiria morá numá fávéla"...
Eu "quiria morá numá fávéla"...
Eu "quiria morá numá fávéla"...

Tô vivendo num buraco
Também chamam di caixoti,
Dipois da inauguração
Nos deixaro à nossa sorti.
Só quiria ser filiz
Máis num tô consiguindo,
Eu pensava qui agora
Num fázia mais do qui fiz.

Eu "quiria morá numá fávéla"...
Eu "quiria morá numá fávéla"...
Eu "quiria morá numá fávéla"...

Meus filhos quer brincá
Num lugarzinho á parti,
Mais áquilo tá à monti
Nem siqué elis tem um parqui.
Tá faltando alegria,
Tá faltando atenção.
Vocês podi num acreditá
Máis tô mal du coração.

Eu "quiria morá numá fávéla"...
Eu "quiria morá numá fávéla"...
Eu "quiria morá numá fávéla"...

Tudo era muitxo belo
Mais nos deixaru à nossá sorti,
Ágora só posso desejá
Qui chegui cedo minha morti...!"
Ié... Oh...
Iééé... Oh...
Ié... Oh...
Iééé... Ooooohhhhoo!!!


Eu "quiria morá numá fávéla"...
Eu "quiria morá numá fávéla"...
Eu "quiria morá numá fávéla"...



Este bem que poderia ser um excerto musical de uma qualquer banda rap ou hip hop, nascida no ano de 2023 no Bairro periférico da Quinta, para retractar o dia-a-dia de um aglomerado de homens e mulheres deixados à sua sorte.

Talvez tenha sido o maior erro de casting da nossa vila.

Mas agora, não há nada a fazer. Aquilo está lá… Por isso, devemos ir em frente e evitar que o final daquela história em jeito de música possa, realmente, acontecer...
Assim, as entidades competentes que olhem para aquele lugar, para aquelas mães prematuras, para aquelas mães retardadas, para aqueles homens de cabisbaixo, para aquelas crianças (ainda) suficientemente alegres para sorrir.
Eles merecem uma oportunidade.
Mas eles também devem fazer por merecer aquele tecto. Qualquer um pode e deve colaborar no trabalho comunitário. A começar pela responsabilidade dos condóminos em tratar o espaço envolvente. Não podem e não devem ser as entidades (Junta de Freguesia e Câmara Municipal) a assumir todos esses encómios. Chama-se a isso a tentativa de incutir o sentimento de pertença e da partilha das "coisas"…
Dizem alguns: "…destroem aquilo que é seu…" Mas se calhar "… não sentem aquilo como seu…"A casa nova não é afinal a sua casa mas aquela que uma sociedade entregou como desculpa de qualquer coisa… E que, em vez de colmatar a exclusão, a confirma… Que em vez de se distribuir para inserir… se junta para segregar…

Mas isto, é só uma desculpa…
Que pode ser boa ou pode ser má.


É que ... Já alguém dizia:

"...As pessoas não são coisas que se metam em gavetas..."


... atento73 ...

4 comentários:

Ângelo Cardoso disse...

mais grave é criarem condições para que crianças sejam mães prematuras, para depois de terem os filhos vir a "dita" assistente social e pedir para essas mesmas crianças irem morar para outro lado pois já tem familia - agora o lugar delas já não é ali....
é vergonhoso mas é a realidade de uma jovem que mora no nosso bairro social...

Anónimo disse...

Éh pá. Gostei do artigo.
Tocou num aspecto importante que as pessoas não têm falado: a aglomeração de pessoas em bairros sociais.
E Diz lá tudo o que se passa.
É importante que se discuta este assunto.
Já agora, para quando o jardim e a construção de um parque infantil junto à habitação social?

Anónimo disse...

O problema é que quem lá vive não quer nada. Quer é umas minis, uns sumois e umas batatas fritas.
Já alguém os viu com vontade de tratar os jardins.

Fátima Oliveira disse...

"Dê um peixe a um homem e ele come-o num dia, ensine-o a pescar e ele comerá para sempre."

Os problemas do nosso complexo social e de todos os outros espalhados pelo nosso país persistirão enquanto a sociedade insistir em “tapar buracos” ao invés de olhar para estes ditos problemas com olhos de ver.
Não basta dar-lhes uma casa ou subsídios como se isto fosse a base da resolução de todos os seus problemas. É necessário perceber o porquê de haver crianças que se tornam mães à força, saber o porquê de haver adolescentes que encaram a vida e a sociedade quase como um inimigo, saber o porquê de haver adultos que vivem à margem daquilo que é considerada uma vida com dignidade… É preciso, antes de tudo, saber a origem destes problemas e actuar aí mesmo para que a solução seja uma realidade a longo prazo e não um “arranjo” para tentar esconder ou minimizar aquilo que não se quer ver.
Por isso, é necessário criar condições para que estas pessoas sejam capazes de, por si próprias, gerir e resolver os seus problemas; é necessário criar mecanismos que ajudem estas famílias a darem um futuro diferente às suas crianças.
A meu ver, é essencialmente na promoção da mudança de mentalidade que está a chave para solucionar este problema. Sei que não é uma estratégia fácil de concretizar mas também sei que não é impossível.´

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