domingo, 27 de maio de 2007

A Igreja Matriz da Vila de Caldas de São Jorge

PREÂMBULO

Estas linhas despretensiosas visam, não uma informação exaustiva da história da nossa Igreja e a envolvência da comunidade paroquial no que a ela diz respeito, mas, tão somente, ser um pequeno subsídio para o conhecimento de parte da sua história e, sobretudo, demonstrar a forma activa e empenhada da comunidade na sua construção e conservação.
Socorremo-nos de alguns escritos, existentes nos registros paroquiais, sobretudo dois tomos com o título de “Livro dos Capítulos das Visitações” e da pesquisa efectuada pelo pároco actual Pe António Machado.


Igreja de São Jorge anos 30


IGREJA PRIMITIVA

Pouco se sabe dela.
A sua localização é conhecida com relativa certeza e terá sido edificada no local da actual residência paroquial assim o indiciam a tradição popular e uma acta da visita-ção de 1741,nove anos depois da sua construção, que mandava «retirar os ossos do adro velho, que não estava vedado para o adro novo - sinal que o local da igreja velha era outro e não longe. E ainda quando em se fez o muro da vedação do pátio da residência apareceram ossos nas escavações do alicerce da parede norte, sinal também de ter sido ali a igreja ou adro antigos.» (c.f. António Machado) Quanto ao tipo de construção, tamanho, posição e estilo nada mais se sabe. Contudo, os
destroços dos seus altares, ainda visíveis há poucos anos, faziam supor que fosse pequena, pobre e destituída de arte.
«Seria ela a primitiva matriz? Não há documentos nem tradição dessa, mas é de presumir que o fosse» (cf. António Machado)
A paróquia é referida no livro Portugália Monumenta Histórica, datado de 1097, sendo, portanto, anterior:
“In Dei nomine ego Patrina prolix eriz ideo placuit mhi per bona pacis et voluntas utfaceremus ad vobis Cresconius episcopus sedes Colimbricensie cartula es tesamentil de hereditate mea propria qua habuit in vilia Caldelias hic in Sancto Georgio damus ad vobis de .iIla ecciesia de medietate II as partes, et habet ijacentia subtus mons Souto rredondo discurrente rribulus umia território portucalensis prope civitas Santa Maria damus ad vobis ilia er ad Sedis Sancta Mara Colimbriense pró remédio anima meã (...).
“Em nome de Deus, eu de origem Petrina, desejo [de meu prazer]1 para bem da paz a vontade de vos fazer a vós Crescónio, bispo da sede Colimbricense [de Coimbra]2, uma carta de testamento sobre a minha própria herança que eu tenho na vila Caldelas aqui em São Jorge damos para vós daquela Igreja uma parte metade, e tem por baixo do monte Souto Redondo um pequeno rio jacente no território Portucalense perto da cidade Santa Maria, damo-la para vós e para Santa Maria da Sede Colimbricense em remédio para a minha alma.
A organização da Igreja em paróquias remonta aos primeiros momentos da Igreja. Mas, quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano, nos finais do século IV, as celebrações litúrgicas puderam deixar o secretismo das casas particulares e proceder-se à construção de templos para as reuniões de toda a com unidade. São portanto, dessa data as primeiras Igrejas.
Será a primitiva Igreja Matriz anterior ou contemporânea do documento acima referido? Não é de supor que o seja. Pois, separam-na da Igreja actual seis séculos o que é muito tempo. Uma coisa é certa, a paróquia já existia a Igreja - a anterior à actual ou outra - talvez!



IGREJA ACTUAL


Custódia de São Jorge

A sua construção teve lugar no tempo do abade Julião (António Julião Botelho; Abade de 1730 a 1753) e durou 4 anos «em 1732 foi tirada a planta e arrematada e feita a obra de pedreiro.
Em 1733 foi arrematada a obra de carpinteiro, cuja planta foi feita no Porto e realizada nesse e nos anos seguintes.
Em 1734 foi coberta de telha. Em 1735 foram postos e acrescentados os altares vindos da igreja antiga; feitos e pintados o camarim do altar - mor, o trono, o sacrário, os supedâneos, o arco cruzeiro, um púlpito, o baptistério, o coro, os bancos, etc. » (c.f. António Machado)
Quanto às despesas conhecem-se algumas pelos registros do Livro da Confraria do Santíssimo, muito incompletos: «a obra de pedreiro, que foi arrematada por 150:000 reis. A planta custou 32:000. E com respeito a materiais e mão de obra diz somente isto: um carro de cal 2:400; salárío de um jornaleiro 120 e de um serrador 200.» (c. t. António Machado)
Quanto a uma das receitas: sabe-se, pela acta da visitação de 7 de Maio de 1733, que foi «feito um ajuste de fregueses com o pároco para cada um deles dar anual-mente uma mesada curada, cujo produto era destinado às despesas da nova igreja.» (c. f. António Machado)
Da nova Igreja se dirá na acta da visita do ano de 1769:
«É boa e nova, com capela-mor e duas sacristias a proporção. Tem cinco altares, mas usou uma pintura no maior e em três colaterais em lugar de retábulo. Tem dois campanários com um só sino. As casas da residência são boas e com bons cômodos e delas se passa para a sacristia por um passadiço.».
É de referir que para esta obra contribuíram com o seu esforço, financeiro e físico, uma população residente menor do que 438 habitantes (era este o número de residentes, segundo a acta de visita atrás referida, no ano de 1769, trinta e sete anos após o início da sua construção).
É sobre a orientação do Pe lnácio António da Cunha (Abade de 1792 a 1825) que é construído o retábulo do altar - mor (1806) o seu douramento (1813), bem como o douramento do sacrário, banqueta e tocheiros (1813), o soalho e tecto da sacristia dos mordomos imagem não é o original. Afigura de Cristo ressuscitado foi-lhe acrescentada no ano de 1995
Em finais de 1823, noventa e um anos após o início da sua construção a Igreja carece de uma intervenção de conservação:
«0 Edifício da Igreja é moderno e magnifico, mas o tecto, os telhados e as obras de madeira do coro estão muito arruinadas necessitam ser concertadas com toda a brevidade porque quanto maior for a demora maior despesa exigirão» (acta da Visita de 21 de Dezembro de 1823).
Panorâmica do altar mor actual, O sacrário da
Quem diria que este documento foi escrito em 1823.
Uma nova referência à Igreja surge-nos no ano de 1840. Era então abade o Pe Joaquim José de Vasconcelos Vargas e Silva (abade de 1825 a 1841). Como poderão ler, é enaltecido o zelo que o pároco e paroquianos dispensam ao cuidado da Igreja o que nos parece ser uma tradição que, entretanto se enraizou no seio da comunidade paroquial.
«Faço saber que visitando esta Paroquial Igreja de S. Jorge na presença do Reverendo Pároco, clero e seus fregueses, depois de ter prestado a devida reverência ao Santíssimo Sacramento visitei primeiramente o altar-mor e o sacrário o qual achei com muito asseio.
Também visitei as altares colaterais, pedras de ara, imagens, santos óleos, pia baptismal, paramentos, vasos sagrados, sacristia e tudo achei na verdade com muito e muito asseio, no que é digno de louvor o zelo do Reverendo Pároco e dos seus fregueses e lhes recomenda continuem com o mesmo zelo para conservação e aumento do culto divino, glória de Deus e edificação dos fiéis.
Seguem-se uma série de reformas ou acrescentos na Igreja paroquial. Sendo de destacar, a construção dos altares do Mártir e o de Santo António no ano de 1874 Foram construídos aproveitando os arcos existentes ficando, portanto, “embutidos” e tapando os retábulos anteriormente pintados.
O período de maior convulsão, após a sua construção, dá-se entre os anos de
1884 e 1888. A paróquia era então conduzida pelo Pe José Correia Dias de Almeida (abade de 1883 a 1904). São desta data a construção da torre (1884) a retirada dos campanários e a colocação do balaústre de pedra, o concerto do coro e retiradas as escadas de madeira interiores que lhe davam acesso e é construído o guarda-vento (1885). Em 1886 é concertado o telhado e em 1888 foi assoalhada a Igreja.
A partir desta data o traçado principal da Igreja não se alterou muito. Foram feitas algumas obras, mas sem alteração da sua estrutura básica. Não quer isto dizer que a comunidade se tenha alheado da sua Igreja. Antes pelo contrário. O zelo e a dedicação continuaram nas obras de conservação ou de alteração que, entretanto se foram sucedendo. A lista de doadores -já publicitada - é extensa. E, se a ela fosse possível acrescentar os que no anonimato doaram, esta seria quilométrica.
Neste documento foram apenas referidas as grandes obras que, pela sua grandeza envolveram toda a comunidade paroquial ou que conferiram uma nova característica ao templo, mas os pequenos gestos e todos os donativos, que vão desde a disponibilidade de tempo para a sua limpeza, passando pelo azeite para o Santíssimo, pelos paramentos, pela estatuária, pelas flores com que se enfeitam os altares... todos construíram e continuam a construir esta nossa Igreja que se quer viva e dinâmica.



FAÍSCA E VENTÀNIÀ

«Em 23 de Maio de 1892, um Domingo, estava o povo na Igreja, às escuras, fazendo exercício do mês de Maria. Principiou a trovejar. E de repente estala uma descarga eléctrica que assombrou a assistência. Foram momentos de pânico e desorientação. Em clamores e súplicas precipitaram-se todos pela porta fora, custando muito a restabelecer o sossego. Felizmente que a faísca depois de descer da torre desviou-se para o lado da residência, atingiu a varanda desta e sumiu-se depois no solo. Outra descarga caiu sobre a Igreja em 5 de Fevereiro de 1930. Tempo bravo, bravo e esquisito. Ia o pároco para a igreja, ainda de noite e o mesmo viu nuvens negras ameaçadoras para os lados de Sanguedo, rugidos e trovões. Maus anúncios. Pouco depois estava o pároco a fazer a preparação para a Missa e já bastante povo na igreja estala o maior dos ribombos do trovão que em toda a vida o pároco tinha visto e ouvido. As mulheres entraram logo em grito. E para as sossegar o pároco bradou-lhes: REZEMOS! E começaram todos a rezar. Mas pouco depois foi ouvido um trovão mais longe, sinal do afastamento do perigo e restabeleceu-se o sossego. No fim da Missa foi-se verificar qual o sítio alvejado e descobriu-se logo: a torre!
Tinha caído a cruz tombando sobre o telhado e trazendo com ela o globo de pedra e um pedaço da peanha, Alguns buracos na cúpula; a parte poente do campanário, um pouco abalada, a cornija nascente do mesmo estalada em alguns sítios, muitos azulejos caídos, outros quebrados. A porta travessa danificada numa ombreira. Enfim, muito susto, estragos importantes e despesas a fazer com reparos. Mas podia ser pior.
Outra queda da cruz teve lugar na noite de 25 para 26 de Março de 1912, e devido não a uma faísca mas a um furioso sopro de um temporal. Era a cruz primitiva. Tombou para o telhado da igreja, estilhaçou muitas telhas e ficou torcida e inutilizada. A torre ficou sem cruz até Novembro de 1913.
E outra vez foi atirada a cruz ao chão em 16 para 17 de Janeiro de 1922. Grande ventania começou a soprar quase ao pé da noite. Estava o pároco numa casa dos Candaídos e com custo veio para casa. Fortes repelões de vento lhe estorvavam o passo e quase o não deixavam respirar. No outro dia de manhã quando foi para a igreja lá deu com a cruz estendida no chão do terreiro.
Não ficara danificada. Foi colocada de novo adiante, em fins de Março.» (c. f. António Machado)


OUTROS INCIDENTES
«No dia 23 de Abril de 1909, à tarde, estando o pároco a rezar o terço com o povo, quando de repente foi sentido estremecer o soalho em que se firmavam os pés e a abanarem as jarras e os castiçais do altar. Todos olharam surpreendidos; mas a sacudidela fora rápida e não causara quedas, nem deslocações. No outro dia os jornais noticiavam o tremor de terra e os estragos e vitimas por ele causadas no Ribatejo.
Pesadíssimo o fim do ano de 1909.
Chuvas torrenciais durante o mês de Dezembro.
No dia 24, após a Missa, o pároco chamou a pequenada à sacristia para lhes dar as estampas do Natal.
Estava o pároco encostado ao arcás, pronto para começar a distribuição quando, de repente se ouviu um estalido e o mesmo sente o soalho a descer.
Felizmente ficara firme no sitio onde estava, não escorregando assim o gavetão, senão haveria desgraça.
Momento de pânico.
Apequenada a gritar lá no fundo e a estender as mãozitas! As mulheres que acudiram logo a gritarem também! E o pároco também durante alguns momentos, com a impressão de um desastre... Mas não teve lugar, felizmente. Os pequenos foram pescados um a um, sem apresentarem ferimentos; e pouco depois, já fora no adro, já todos se riam a comentar as posições em que haviam ficado. De tarde foi o soalho posto no sítio. O que o pároco ignorava era que existia aquele subterrâneo.» (c. f. António Machado)

CURIOSIDADES

«Na parede exterior da Igreja, do lado S. está uma pedra com uma inscrição.
A pedra é muito branda, pelo que em 1840 já mo custou a ler. Como muitos curiosos desejaram e diz a inscnição, aqui vai:
Pedro Gonçalves, de esta freguezia, deixou por obrigação a seu filho Balthazar Fernandes o sucessores, que é mandar-se dizer n’esta igreja nove missas em cada ano, que se dissessem do modo e nos tempos declarados em seu testamento, e vinculou a esta capela as herdades declaradas no dito testamento, e que o visitador tomasse conta de isso.» (c. f. António Machado)

OBRAS A REALIZAR

Como é de todos conhecido, e por todos reconhecido a nossa Igreja necessita urgentemente de obras de conservação e adaptação, visando apropriar o espaço às necessidades da paróquia; conferindo-lhe condições de conforto que possibilitem e potenciem a vivência ajustada das celebrações comunitárias. Para isso, de novo, e apelando à generosidade característica e histórica da nossa comunidade, voltamos a convocar todos, para que todos construamos a nossa Igreja que é muito mais do que “pedra e cal”. A todos fazemos apelo à generosidade e agradecendo desde já, enunciamos as obras para as quais contamos com a vossa colaboração:
1 - Ampliação e arranjo do Coro.
2 - Arranjo do Baptistério
3 - Guarda-vento da porta principal.
4 - Confessionário
5 - Porta lateral Sul
6 - Porta lateral norte
7 - Porta sacristia
8 - Porta grande interior da Igreja
9 - Porta Igreja Sul
10 - Casa de banho (masculino e feminino) anexa à igreja.
11 - Galilé e claustro exterior do lado sul.
12 Aquecimento central da Igreja
13 - Concerto e arranjo dos caixotões do corpo da Igreja.
14 - Carrilhão da igreja e automatização dos sinos e toques.
15 - Pálio novo de passagem da para a sacristia
16 - Porta de passagem da Igreja para a sacristia norte
17 - Porta interior do hall de entrada para a sacristia
Etc.

ATM

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