terça-feira, 8 de maio de 2012

Dois anos depois de encerramento da Rohde, trabalhadores continuam no desemprego - Sociedade - Sol

O encerramento da fábrica de calçado Rohde foi votado em assembleia de credores há dois anos, por 866 dos seus 980 funcionários, e 60 por cento dessa força laboral continua desempregada, sobretudo os menos jovens.

Fernanda Moreira acompanhou o processo de insolvência da empresa da Feira enquanto dirigente do Sindicato dos Operários da Indústria do Calçado, Malas e Afins dos Distritos de Aveiro e Coimbra, e disse à Lusa que, do universo de funcionários daquela que era então a maior empregadora nacional do sector, «os trabalhadores das secções de costura e montagem foram os que mais facilmente arranjaram emprego no ramo».

A dirigente sindical revela que um número significativo desses operários «foi admitido pela Ecco no início deste ano e outros 30 foram colocados numa fábrica nova de Espargo», mas admite ser «natural que as empresas dêem preferência a trabalhadores mais jovens».

«Alguns abriram os seus próprios negócios, mas isso aconteceu com uma meia dúzia de pessoas, se tanto. E a realidade é que, para os outros, está cada vez mais complicado», disse.

Elsa Reis é uma das ex-trabalhadoras da Rohde que continua desempregada e, depois de ter dedicado 24 anos à empresa no «serviço de mãos», ainda espera receber a devida indemnização pelo seu despedimento - já que, até hoje, todos os operários da unidade se ficaram apenas por um adiantamento do Fundo de Garantia Salarial e só após a venda do restante património da fábrica poderão receber a totalidade dos seus direitos.

«Já fui para outra empresa, mas não me quiseram e, quase a fazer 49 anos, não estou a ver jeitos de isto melhorar», desabafa a operária das Caldas de S. Jorge. «O meu marido trabalhava na cortiça e também está no desemprego».

O único aspecto positivo que Elsa Reis reconhece na sua situação é o facto de ter uma horta de onde retira «tudo o que é hortaliças e batatas, o que, parecendo que não, é uma ajuda grande no dia-a-dia».

A partir de Janeiro, contudo, a situação poderá mudar de figura: «Aí deixo de receber o subsídio de desemprego e então é que não sei o que vai ser da nossa vida».

José Escaleira tem 57 anos, trabalhou 20 na Rohde e também diz que «não pagar renda é a única coisa boa» na sua presente situação. «Isto está tudo muito mal», defende. «Não estou a ver quem é que me vai dar emprego com a minha idade e com uma tendinite. E a minha mulher trabalhava na cerâmica, mas agora também está parada com invalidez, depois de uma trombose e de ter sido operada aos joelhos».

O ex-montador da freguesia de Souto já tirou dois cursos desde que perdeu o seu posto de trabalho, mas considera que «sem conhecimentos não é fácil arranjar emprego» e lamenta ainda «a mentalidade» de potenciais empregadores, como aquele que lhe disse: «Você é bom, mas, para eu lhe dar emprego, devia ter menos uns 20 anos».

«Ora, muito obrigado», foi a resposta que José Escaleira ainda hoje repete com irritação. «Se a minha avó não estivesse morta também era viva e se eu tivesse menos 20 anos tinha é emigrado, que neste país não se vai a lado nenhum».

Para Valdemar Coelho, o problema é que «nem o tribunal nem o sindicato averiguaram a sério o que aconteceu a todo o dinheiro que a administração portuguesa da Rohde fez desaparecer por baixo do pano».

Com 48 anos, o montador de S. João de Ver trabalhou 30 anos na fábrica de calçado da Feira e garante: «Dizer que não havia encomendas foi uma desculpa para se fechar a fábrica antes que alguém descobrisse o que lá se andava a passar. A Rohde alemã agora tem fábrica na Bósnia e trabalhinho não lhe falta».

Valdemar Coelho conta que já foi a várias entrevistas, mas a resposta foi sempre negativa e, nesse contexto, lamenta o comportamento de várias entidades: «Mandam-nos para sítios que não estão interessados em contratar ninguém e depois há um fulano, por exemplo, que diz que um curso do Centro Tecnológico não vale nada e outro que me chama de ‘mono’, porque já não sirvo para nada».

«Eu não sou mono nenhum», reage o ex-montador da Rohde, com revolta. «Trabalhei muitos anos, tenho muita experiência e acho é que é uma vergonha a forma como esta gente nos trata, sobretudo quando depois fazemos queixa no Centro de Emprego e eles dizem que não têm nada a ver com isso».

«As pessoas já não sabem o que é o respeito», conclui esse trabalhador. «E só por aí, já se vê porque é que isto não anda para a frente».

Lusa/SOL

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